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quinta-feira, 2 de junho de 2011

Era uma vez filmes feitos para crianças...

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Por Lucas Dias

Como já é costume, todo ano o Cineclube Carcará organiza uma mostra de animações - e, convenhamos, uma mostra por ano dedicada ao tema é bem pouco se se considerar a expansão que o mercado consumidor deste tipo de filme vem sofrendo, ainda mais com o alto grau de desenvolvimento tecnológico que permite criações usando inteligência artificial e, mais recentemente, em 3D (não que o 3D seja algo atualíssimo, mas só agora encontraram, de fato, o nível ótimo de sua utilização - para o bem e para o mal).

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A pomposa estreia de Aki Kaurismäki no Cinema

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por Rodrigo Castro

Aki Kaurismäki (bio em inglês no IMDb) decidiu adaptar o romance mais famoso de Fiódor Dostoiévski após ler um livro de François Trauffut sobre Alfred Hitchcock, em que o mestre do suspense afirmou que jamais ousaria adaptar a obra russa para o Cinema por considerá-la extremamente difícil. Imagine, então, o pensamento do diretor finlandês: "Bom, é o meu primeiro longa-metragem, então por que não começar com uma adaptação de um clássico do maior escritor russo de todos os tempo?". E então surgiu Riko ja Rangaistus - ou, em bom português, Crime e Castigo, o mesmo nome do livro de Dostoiévski -, filme de estreia do cineasta nascido em Helsinki, Finlândia, e que esnobou o Oscar por duas vezes - em 2003, disse que se sentia desconfortável em receber prêmios numa nação em estado de guerra, e em 2006 disse ao responsável finlandês pela indicação finlandesa que não entregaria os documentos necessários para a inscrição do filme na competição pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Kaurismäki já pensando no sucesso
de sua adaptação de Crime e
Castigo para o Cinema
A adaptação não é literal, o que significa que não é 100% fiel ao livro - o que é bom, já que o melhor mesmo é ler o livro, e não assistir um substituto do mesmo. A trama é a mesma: um jovem estudante assassina duas pessoas, e daí desenrola-se uma história deslumbrante criada por uma mente tão doentia (Dostoiévski era epiléptico e sofria graves crises de depressão) quanto criativa, apontada por Friedrich Nietzsche como "o único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida [...]". Kaurismäki, em seu primeiro filme, esbanjou ousadia e competência, já que o resultado final foi aprovado tanto pela crítica quanto pelo público. Além disso, conseguiu um feito também muito difícil a quem se aventura em roteiros adaptados: contextualizar a obra - no caso de Crime e Castigo, de 1866 - ao tempo do filme - no caso de Riko ja Rangastaus, 1983. Não raro coisas terríveis surgem em diversos cantos do mundo na tentativa de "modernizar" romances antigos.
Selo de 1971 da an-
tiga URSS, em home-
nagem ao escritor
russo (retirado da
Wikipedia)

O filme Crime e Castigo será exibido às 17h no dia 9 de outubro, sábado, no Cine Carcará - porão do Centro de Vivência da UFV. Você pode encontrar uma boa crítica sobre o livro de Dostoiévski no site do Jornal Carta Forense e na Revista Bula. Sobre Dostoiévski, você pode ler página dedicada à biografia do autor na Wikipedia.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Mulher de Todos - Mostra Especial de Aniversário

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por Rodrigo Castro

Eis mais uma obra do chamado Cinema Marginal. Assim como o filme da semana passada, de Julio Bressane, A Mulher de Todos explicita várias das características já citadas do movimento de oposição ao Cinema Novo de Glauber Rocha. Os temas popularescos, a migração do sensacionalismo jornalístico para os enredos, o sexo, a violência, o grotesco... tudo isso está presente no movimento do qual Rogério Sganzerla (bio no Wikipedia) foi um dos maiores ícones. Mas o filme desta sexta é um tanto diferente em relação a Matou a família e foi ao cinema - a começar pelo elenco. Enquanto Julio Bressane contava com um elenco formado por amigos e conhecidos, Sganzerla pode contar com a participação de sua musa-mulher Helena Ignez, além de Stenio García, Jô Soares e Antônio Pitanga - pai de Camila e Rocco Pitanga.

No que se refere ao filme em si, há diversas outras diferenças que merecem ser notadas com mais atenção. Uma delas é que o filme de Sganzerla é especialmente barulhento, em oposição ao de Bressane, que fez do silêncio uma marca de seus filmes. Desde a trilha, passando pelos diálogos às vezes gritados, até os sons ambientes, tudo é bastante estridente. Em cena, os atores não raro olham diretamente para a câmera, em direção ao público, evidenciando a ficcionalidade do Cinema e transformando-o - assim como a posição de observador no filme de Bressane - em parte ativa do filme. Não há mais aquele espectador sentado comportadamente na poltrona da sala de exibição, e sim alguém que faz parte da trama.

Poster original do filme
Mantendo a filosofia marginal de se fazer filmes, A Mulher de Todos tem, como principal objetivo, chocar a sociedade da época, em especial a "vidinha média de classe média", nas palavras de Ruy Gardnier. A narração do filme é uma tremenda tiração de sarro da sociedade da época (e continua, infelizmente, bem atual), assim como todo o filme foi feito pensando em como o exagero faria as pessoas se sentirem mal. A começar pelo próprio título, que já transmite uma ideia sobre do que se trata o filme. Para entender a bronca de Sganzerla com essa população "inculta e analfabeta", como ele mesmo chamou, vale a pena ler um trecho de um texto seu, intitulado Uma videologia da novela, a doença da nação, publicado originalmente em Cine Imaginário, em maio de 1988, e reproduzido aqui através do site Contracampo - Revista de Cinema:
A população não quer ver, nem ouvir com olhos e ouvidos livres, mas tão somente ser vista, aparecer, fazer fama para deitar na cama do sub-sucesso fácil, talvez virar sub-super-star de uma hora para outra, trair sua condição colonial, enganando aos outros e, pior de tudo, a si mesmo. O brasileiro não quer ver mas ser visto. (Rogério Sganzerla, Cine Imaginário - maio de 1988)
A Mulher de Todos será exibido hoje, sexta-feira, às 16h e às 18:30h, no Cine Carcará. Você pode conferir mais informações sobre o filme em dois textos selecionados pelo blog, ambos da Contracampo: um de José Lino Grünewald e outro de Jairo Ferreira, datado do ano de lançamento do filme. 
A Contracampo também possui um especial dedicado a Rogério Sganzerla, com entrevistas, depoimentos, críticas, textos do cineasta, etc.

Não perca amanhã o clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, terceiro filme do Projeto Fã Cine do mês.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Matou a Família e foi ao Cinema - Mostra Especial de Aniversário

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O filme de Julio Bressane é um dos grandes marcos do Cinema Marginal brasileiro. Matou a Família e foi ao Cinema reúne fragmentos de várias vidas, retratadas por uma câmera inovadora e ousada. O uso de molduras para enquadrar as cenas (através de portas e janelas) dão um tom voyeur ao filme, já que evidencia a postura de observador de quem está assistindo. Além de claramente contar com características conhecidíssimas do Cinema Marginal - baixo orçamento, rompimento da linguagem narrativa clássica do Cinema, atores-amigos, etc etc etc -, Matou a família... é um exemplo clássico dos filmes de Bressane: silencioso e provocante.

A trilha sonora, quando presente, foi colocada de maneira bem irreverente em relação às cenas que acompanha, já que normalmente estamos acostumados a entrar no clima do que vai acontecer através da trilha: Bressane corta essa sensação com trilhas às vezes totalmente desconexas com o que está acontecendo na cena. Um bom exemplo é a filha que mata a mãe por devido ao relacionamento lésbico que a mãe não aceita, quando, de repente, Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá/ Oi terra boa pra se vadiar invade as telas e os ouvidos dos espectadores. Descontando alguns segundos em que as músicas caminham junto com as cenas, restam apenas diálogos, não muito complexos (e nem é a intenção), e muito, muito silêncio.

Poster original do filme
Os cortes e a falta deles também são inusitados, já que não seguem um padrão narrativo. Não há compromisso em manter um ritmo no filme, pelo menos não como estamos acostumados a ver. Alguns planos seguem longos, por um tempo, muitas vezes sem nem ao menos sons, enquanto outros são cortados rapidamente e alternados (um close, um plano geral, outro close, e assim por diante). Como há uso recorrente de molduras nas cenas, é comum que a câmera esteja fixa num ponto enquanto a ação se desenvolve em outro, fora da tela propriamente dita, causando estranheza - por sinal, é um recurso que lembra muito o que Michael Haneke faz em alguns de seus filmes, como Violência Gratuita e Benny's Video.

Matou a Família e foi ao Cinema será exibido hoje, sexta-feira, às 16h e 18:30h no Cine Carcará, e faz parte da Mostra Especial de Aniversário do Cineclube Carcará. Bom divertimento!